quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Nobel da Paz iraniana prega universalidade dos direitos humanos

Edição: NE/MARCELO NINIO
da Folha de S. Paulo, em Genebra

À primeira vista, a iraniana Shirin Ebadi, de pouco mais de 1m50 de altura e um jeito tímido, parece uma mulher frágil, quase indefesa. Mas, quando começa a falar sobre a luta pela igualdade de direitos em seu país, fica logo claro porque a advogada de 61 anos ganhou o Prêmio Nobel da Paz em 2003.

Foi o que aconteceu ontem, quando Ebadi eletrizou a platéia que lotou a Assembléia da ONU, em Genebra, em um evento para celebrar os 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Ao lado de outro Nobel, o escritor nigeriano Wole Soyinka, vencedor do prêmio de literatura em 1986, Ebadi defendeu o caráter universal dos princípios contidos no documento sexagenário, o que, em seu país, ainda é algo longe da realidade.

Segundo Ebadi, o Irã, como a maioria dos países islâmicos, argumenta que os artigos da declaração refletem valores ocidentais que são incompatíveis com sua cultura. Partindo da premissa de que seu poder vem da sharia (lei islâmica), ignoram a vontade popular e censuram toda interpretação da religião diferente da oficial.

"Qualquer crítica às ações do governo em termos de violações de direitos humanos, discriminação de gênero ou negação da liberdade de expressão é tratada como um ataque ao islã. Defensores dos direitos humanos são silenciados e acusados de heresia", contou.

Para a advogada, está claro que o islã é apenas um instrumento de repressão. "Intelectuais islâmicos já demonstraram que o islã não é incompatível com os direitos humanos. Esses muçulmanos iluminados, cujas vozes estão sendo ouvidas cada vez mais nos países islâmicos, desafiam a ditadura, que faz um mau uso da religião para proteger seus interesses e oprimir o povo", disse.

Embora grande parte de seu trabalho seja em defesa das liberdades civis, Ebadi lembrou que elas não podem existir sem direitos econômicos e sociais.

E propôs que a ONU adote uma convenção contra a pobreza, que obrigue os governos a dedicar recursos ao bem-estar de sua população. Uma das idéias de Ebadi: todo país cujo orçamento militar supere a verba destinada a educação e saúde ficaria impedido de receber crédito internacional.

"Sei que uma idéia como essa, no meio da turbulência financeira e da corrida armamentista, parece um sonho", admite. “Mas nosso desafio é continuar sonhando, enquanto agimos realisticamente.”

A celebração pelos 60 anos da Declaração terá sua principal cerimônia em Genebra amanhã, com representantes de vários países. Entre eles o chanceler Celso Amorim, que discursará lembrando que o Brasil estava entre os 58 países que participaram da sessão histórica em que o documento foi adotado, em 1948. Amorim ressaltará a importância dos direitos econômicos e lançará oficialmente o projeto de metas voluntárias de direitos humanos, iniciativa do Brasil aprovada há três meses na ONU.

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